segunda-feira, 2 de novembro de 2015

O porco



O Beto é irmão da Tita, tinha uns 7 anos, não era um caso raro de inteligência precoce, mas podia-se dizer que era bastante esperto.

Um dia ele estava na escolinha da Dona Lalá, mulher do bairro que ensinava as crianças na sua casa mesmo. Já naquele tempo existiam pessoas que faziam algo pelos outros, mesmo quando o Governo não fazia.

Dona Lalá, pediu que todos desenhassem um bicho. Beto, era o mais novo, sardento, magrelo e tinha os mesmos olhos apertadinhos da Tita. O menino, pensou, pensou e não achava que poderia desenhar tão bem, nada.
Pensou no cavalo e logo desistiu. Cavalo tinha formas que ele não sabia fazer. Pensou no cachorro, hum ... rabiscou e nada saía parecido com o cachorro que ele queria.

Ah! Mas tinha um que não sairia errado. Um porco. Afinal, eram duas bolas, uma pequena para a cabeça e uma grande para o corpo.

Beto foi desenhando todo empolgado, o rabo saiu fácil, porque era uma voltinha. Desenhou as orelhas, os olhos, o focinho e Dona Lalá começou a apressá-los pois a aula estava acabando e o Beto ainda no capricho.

- Vamos Beto, vamos!!

- Já tô acabando, já tô acabando Dona Lalá .Como será que era o nome da Dona Lalá? Pensava Bego, enquanto isso. Seria Eulália? Laurinda? Laura?

- Beto, vou ter que sair. Anda menino!!

Beto, se apressou com o desenho, faltavam  as pernas, terminou correndo, guardou o lápis, a caderneta, o resto do lanche. O lanche do Beto era pão com manteiga, era isso que ele contava pra todo mundo. Mas na verdade, era banana esfregada no pão. Porque na sua casa não tinha manteiga e os meninos sempre caçoavam dele, Chamando-o de "Beto Banana". Todo dia ele levava de lanche um pão e uma banana. Então, ele resolveu passar a banana no pão e assim todos pensariam que era manteiga. E pronto!

- Olha Dona Lalá o meu desenho ?!

Ao lado da dona Lalá estava o Almir. Oh menino chato aquele! Quando ele viu o desenho já começou a gritar:


- Ahahaha venham ver o porco do Beto Banana, ele fez um porco com seis pernas. AHHaHHH !!

- Seis pernas ?!! Como assim?? Uma, duas, três, quatro, ci..n..co ...se.. e..i..s. Beto sentia as bochechas corarem e a vontade de entrar pelo primeiro buraco da terra.

Dona Lalá, que era doce como bala, pegou a caneta, olhou bem nos olhos do Beto, que já estava do tamanho de uma formiga e escreveu como se estivesse pintando. NOTA 10

- Nota 10? Nota 10! Eu tirei nota deizzzzzzzzz

Beto saiu em disparada com o pedaço de papel na mão descendo a rua Corredeira, até chegar na sua casa.

- Pai, pai, olha !! Olha fiz um desenho de um porco com 6 pernas e a professora me deu nota 10. Falou o Beto, todo malandro, contando vantagem e muito surpreso com tudo que tinha acontecido.

O pai que era mais malandro do que ele, respondeu logo:

- Oh meu filho! Da próxima vez faz com 8 pernas ai ela te dá 15.

Jogo da memória



Dona Teresa tem 85 anos, então é chover no molhado dizer o que ela já viveu . O melhor é contar o que ela tem vivido. Vaidosa,  poderosa e com um espirito que não se dá conta da idade que tem, vive saracoteando e aprontando por ai, muitas vezes deixando os que estão ao lado de cabelo em pé .

Nem sempre é sábia em suas decisões, mas outro dia me contou uma história sobre o que tem feito para resolver o problema de memória. Falou isso com muita certeza de que seria o melhor remédio pra mim, já que me viu por diversas vezes procurando as minhas chaves que insistem em sumir sempre que preciso delas.

Eu tenho um sonho recorrente de que um dia alguém há de inventar um chaveiro que grite pra você :

- " Ei tô aqui ...Psiiuu, linda ...vem aqui, vem me pegar! "

Enquanto isso não acontece Dona Teresa me disse o que anda fazendo para driblar esses pequenos esquecimentos.

- "Olha minha filha agora não perco mais tempo e nem fico mais nervosa. Se deixo uma coisa aqui e depois não me lembro mais onde deixei. Eu falo assim pra ela:

- Olha aqui dona tesoura, quando a senhora estiver disposta a trabalhar a senhora apareça. Ai finjo que nem mais estou ligando pra ela e, de repente olho, em cima da mesa e a vejo , então passo e digo : - Ah agora a senhora tesoura quer conversa comigo ?! "

E eu fiquei cada vez mais interessada por essa técnica.

Dona Teresa continuou me contando ...

- "Sabe que outro dia, eu precisava sair e queria uma calça branca que não achava de jeito nenhum. Sentei na cama, abri o armário e falei assim:

- Ah dona calça! A senhora tão elegante e bonita vai querer ficar aí trancada dentro do armário? Não vai querer passear ?? O dia está tão bonito lá fora. Vamos ficar nós duas aqui sem fazer nada ??

- É não é que ela apareceu rapidinho ...kkkkkkkkk " .

Ela ria, da atitude da calça e não da conversa que ela teve com as roupas do seu armário.

Na mesma hora resolvi esquecer o São Longuinho, os 3 pulinhos e o negrinho do pastoreio .

Comecei a tratar melhor a minha chave. E que o melhor remédio seria ter um bom argumento para ela me achar, caso desaparecessem de novo!

Bjs da Ga ;*